O Concílio de Trento
Decreto sobre a Justificação...
As pessoas dispõem-se para a salvação, quando movidos e ajudados pela Graça Divina, e trocando o ódio pela fé, se inclinam deliberadamente a Deus, crendo ser verdade o que sobrenaturalmente Ele revelou e prometeu. Em primeiro lugar, Deus salva o pecador pela graça que ele adquiriu na redenção, por Jesus Cristo, e reconhecendo-se como pecadores e passando a admitir a justiça divina, que na realidade os faz aceitar a misericórdia de Deus, adquirem esperanças de que Deus os olhará com misericórdia pela Graça de Jesus Cristo, e começam a amar-Lhe como fonte de toda justiça e salvação, e por isso se voltam contra seus pecados com algum ódio e repulsão, isto é, com aquele arrependimento que devem ter antes de serem batizados e enfim, se propõe a receber este sacramento, começar uma vida nova e observar os mandamentos de Deus.
Desta disposição é que falam as Escrituras, quando diz: "Aquele que se aproxima de Deus deve crer que Ele existe, e que é o Remunerador dos que O buscam. Confia filho: teus pecados serão perdoados, e o termos a Deus afugenta os pecados". E também: "Fazei penitência e receba cada um de vós o batismo em nome de Jesus Cristo para a remissão de vossos pecados e conseguireis o Dom do Espírito Santo". E ainda: "Ide pois e ensinai todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinai-as também a observar tudo que Eu recomendei". E enfim: "Preparai vossos corações para o Senhor".
A esta disposição ou preparação se segue a salvação em si mesma, que não só é o perdão dos pecados mas também a satisfação e renovação do homem interior, pela admissão voluntária da graça e dons que a seguem, e daí resulta que o homem de injusto pecador, passa a ser justo e de inimigo a amigo, para ser herdeiro na esperança da vida eterna. As conseqüências desta salvação são a glória final de Deus e de Jesus Cristo, e a vida eterna.
O meio para conseguir isso, é Deus Misericordioso, que gratuitamente nos limpa e santifica, marcando-nos e ungindo-nos com o Espirito Santo, que nos é prometido e que é o prêmio da herança que havemos de receber. A conseqüência meritória é o muito Amado e Unigênito Filho, nosso Senhor Jesus Cristo que em virtude da imensa caridade com que nos amou, a nós que éramos inimigos, nos brindou, com Sua Santíssima paixão no madeiro da Cruz, com a salvação e fez por nós a vontade de Deus Pai. O instrumento destas benemerências é o sacramento do Batismo, que é sacramento de fé, sem a qual ninguém jamais conseguiu ou conseguirá a salvação. Efetivamente a única conseqüência formal é a Santidade de Deus, não aquela com a qual Ele mesmo é Santo, porém com aquela com que nos faz santos, ou seja, com a Santidade que dotados por Ele, somos renovados interiormente em nossas almas, e não só seremos salvos, mas também assim Ele nos chama, e seremos participantes, cada um de nós, da Santidade segundo à medida que nos fornece o Espírito Santo, de acordo com sua vontade e segundo à própria disposição e cooperação de cada um.
Sabemos ainda que apenas poderão ser salvos aqueles a quem forem ensinados os benefícios da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto porém, se consegue na salvação do pecador, quando o benefício da mesma santíssima paixão se difunde pelo amor de Deus por meio do Espírito Santo nos corações dos que são salvos e fica inerente neles.
A partir disso, que na própria salvação, além da remissão dos pecados, se difundem ao mesmo tempo no homem, por Jesus Cristo, com quem se une, a fé, a esperança e a caridade, pois a fé, se não estiver firmemente agregada à esperança e à caridade, nem une perfeitamente o homem com Cristo, nem o faz membro vivo de Seu Corpo. Por esta razão se diz com máxima verdade que a fé sem obras é uma fé morta e ociosa, e também, para Jesus Cristo nada vale a circuncisão, nem a falta dela, mas vale apenas a fé que ocorre pela caridade. Esta é aquela fé que por tradição dos Apóstolos pedem os Catecúmenos à Igreja, antes de receber o sacramento do batismo quando pedem a fé que dá vida eterna, a qual não pode vir da fé sozinha, sem esperança nem caridade. Daqui então, imediatamente vem à lembrança as palavras de Jesus Cristo: "Se quiseres entrar no Céu, observa os mandamentos". Em conseqüência disso, quando os renascidos ou batizados recebem a verdadeira e Cristã Santidade, são alertados imediatamente que a conservem em toda a pureza e serenidade com que a receberam, para que não ocorra como Adão que a perdeu, por sua desobediência, tanto para si como para seus descendentes. Esta Santidade lhes deu Jesus Cristo com a finalidade de com ela se apresentarem perante Seu tribunal, e consigam a salvação eterna.
Mesmo que seja necessário crer que os pecados não se perdoam e nem jamais serão perdoados senão pela graça da misericórdia Divina e pelos méritos de Jesus Cristo, sem dúvida não se pode dizer que se perdoam ou que se tenham perdoado a ninguém que tenha ostentado sua confiança e certeza de que seus pecados sejam perdoados sem a graça e misericórdia de Deus, e se fiem apenas nisso, pois podem ser encontrados entre os hereges e cismáticos, ou melhor dizendo, se fala muito em nossos tempos e se preconiza com grande empenho contra a Igreja Católica, esta confiança vã e muito distante de toda piedade, nem tão pouco se pode negar que os verdadeiramente salvos devem ter por certo em seu interior, sem a menor dúvida, que estão salvos pela graça e misericórdia divina, nem que ninguém fica absolvido de seus pecados e se salva senão com a certeza que está absolvido e salvo com essa mesma graça, nem que com apenas esta crença consegue toda sua perfeição, perdão e salvação, dando a entender que aquele que não cresse nisto, duvidaria das promessas de Deus e da certeza da morte e ressurreição de Jesus Cristo, pois assim como nenhuma pessoa piedosa deve duvidar da misericórdia Divina, dos méritos de Jesus Cristo, nem da virtude e eficácia dos sacramentos.
Do mesmo modo todos podem recear e temer a respeito de seu estado de graça se reverterem toda consideração a si mesmos e a sua própria debilidade e indisposição, pois ninguém pode saber mesmo com a certeza de sua fé, na qual não cabe engano, que tenha conseguido a graça de Deus.
Os que conseguiram a salvação e assim tornados amigos e íntimos de Deus, caminhando de virtude em virtude, se renovam como diz o Apóstolo, dia após dia. Assim é, que mortificando sua carne e servindo-se dela como instrumento para salvação e santificação mediante à observância dos mandamentos de Deus e da Igreja, crescem na mesma santidade que conseguiram pela graça de Cristo, e auxiliando a fé com as boas obras, se salvam cada vez mais, segundo o que está escrito: "Aquele que é justo, continue em sua salvação". Em outra parte: "Não te receies da salvação até a morte". Também: "Bem sabeis que o homem se salva por suas obras, e não só pela fé".
Este é o aumento de santidade que pede a Igreja quando roga: "Concedei, ó Senhor, aumentar a nossa fé, esperança e caridade".
Ninguém, ainda que já esteja salvo (batizado) pode persuadir-se de que está isento de observar os mandamentos e nem valer-se daquelas palavras temerárias e proibidas inclusive com excomunhão pelos Padres, as quais dizem que a observância dos preceitos divinos é impossível ao homem salvo, pois Deus jamais nos pede coisas impossíveis, mas pedindo, aconselha que apenas façamos aquilo que pudermos, e que peçamos aquilo que não tivermos a possibilidade de fazer, pois Ele sempre nos ajuda com Suas graças para que consigamos fazer aquilo que Ele nos pede, e Seus mandamentos não são pesados, e Seu jugo é suave, e Sua carga é leve.
Os que são filhos de Deus, amam a Cristo e os que O amam como Ele mesmo atesta, observam Seus mandamentos, e isso, por certo, o podem fazer devido à Divina Graça, pois ainda que nesta vida mortal caiam eventualmente os homens, por mais justos e santos que sejam, ao menos em pecados leves e cotidianos, que são chamados pecados veniais, nem por isso deixam de ser justos, porque dos justos são aquelas palavras tão humilde como verdadeira: "Perdoai as nossas ofensas".
Portanto, é muito importante que também os justos sejam obrigados a percorrer o caminho da santidade, pois, apesar de livres dos pecados, mas alistados entre os servos de Deus, podem, vivendo sóbria, justa e piedosamente, adiantar em seu proveito, a graça de Jesus Cristo, que foi quem lhes abriu a porta para entrar nesta graça.
Deus por certo não abandona aos que chegaram a salvar-se com Sua graça, se estes não O abandonarem primeiro, e em conseqüência, ninguém deve se envaidecer por possuir a fé, convencendo-se que somente por ela estará destinado a ser herdeiro e que há de conseguir a herança de Deus, a menos que seja partícipe com Cristo de Sua paixão, para o ser também em Sua glória pois, ainda o mesmo Cristo, como diz o Apóstolo: "sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente em todas as coisas que padeceu e consumada Sua paixão passou a ser a causa da salvação eterna de todos os que O obedecem". Por esta razão, adverte o mesmo Apóstolo aos batizados dizendo: "Ignorais que entre aqueles que participam dos jogos, ainda que muitos participem, apenas um recebe o prêmio? Correi então, para que alcanceis este prêmio. Eu efetivamente corro, não com objetivo incerto, e luto não como quem descarrega golpes no ar, porém, mortifico meu corpo e o faço me obedecer, e não é porque prego a outros, que eu possa me condenar".
Além disso, o Príncipe dos Apóstolos, São Pedro, diz: "Zelai sempre para assegurar, com vossas boas obras, vossa vocação e eleição, pois procedendo assim, nunca pecareis". Daqui consta que se opõe à doutrina da religião católica os que dizem que mesmo o justo peca em toda boa obra, pelo menos venialmente, ou, o que é mais intolerável, que merece as penas do inferno, assim como os que afirmam que os justos pecam em todas as suas obras, se, encorajando na execução das mesmas sua fraqueza e exortando-se a correr na palestra desta vida, se propõe como prêmio, a bem-aventurança, com o objetivo de que principalmente Deus seja glorificado, pois a Escritura diz: "pela recompensa inclinei meu coração a cumprir Teus mandamentos que salvam". E de Moisés, diz o Apóstolo, que tinha presente ou aspirava a recompensa.
O mesmo se há de crer acerca do Dom da perseverança (na fé), do que dizem as Escrituras: "Aquele que perseverar (na fé) até o fim, se salvará" .
Essa perseverança não poderá ser obtida de outra mão senão daquele que tem a virtude de assegurar ao que está em pé, que continue assim até o fim, e de levantar ao que cai. Ninguém prometa coisa alguma com segurança absoluta, pois todos devem ter confiança que a ajuda Divina é a mais firme esperança de sua salvação.
Deus, por certo, a não ser que os homens deixem de corresponder à sua graça, assim como iniciou a boa obra, a levará à perfeição, pois é Ele que causa ao homem a vontade de fazê-la, e a execução e perfeição dessa obra.
Não obstante, os que se convencem de estar seguros, olhem bem, não caiam, e procurem sua salvação com temor e amor, por meio de trabalhos, vigílias, esmolas, orações, oblações, sacrifícios e castidade, pois devem estar possuídos de temor a Deus, sabendo que renasceram na esperança da glória, mas não chegaram à sua posse fugindo dos combates que lhes foram impostos, contra a carne, contra o mundo e contra o demônio.
Aos que não podem ser vencedores senão obedecendo, com a graça de Deus ao Apóstolo São Paulo, que diz: "Somos devedores, não à carne para que vivamos segundo ela, pois se vivermos segundo à carne, morreremos, mas se mortificarmos com o espírito a ação da carne, então viveremos".
Os que tendo recebido a graça da salvação, a perderam por pecado, poderão novamente salvar-se pelos méritos de Jesus Cristo, procurando, estimulados com o auxílio divino, recobrar a graça perdida, mediante o sacramento da Penitência. Este modo de salvação é a reparação ou restabelecimento daquele que caiu em pecado, a mesma que com muita propriedade foi chamada pelos Padres de segunda tábua (apoio de salvação) depois do naufrágio da graça que perdeu.
Assim sendo, para aqueles que, depois do batismo, caírem em pecado, foi estabelecido por Jesus Cristo o sacramento da Penitência, quando disse: "Recebei o Espírito Santo, e àqueles a quem perdoares os pecados, ficarão perdoados, e àqueles a quem não perdoares, não serão perdoados". Por isto, se deve ensinar que é muito grande a diferença entre a penitência do homem cristão depois de sua queda, e o batismo, pois a penitência não somente inclui a separação do pecado e sua renegação, ou o coração contrito e humilhado, mas também a confissão sacramental dos pecados, ao menos em desejo de fazê-la no devido tempo, e a absolvição dada pelo sacerdote, e também a satisfação por meio de ajudas, esmolas, orações e outros exercícios piedosos da vida espiritual. Não da pena eterna, pois esta se perdoa juntamente com a culpa, pelo sacramento, ou por seu desejo, senão pela pena temporal que segundo ensina a Escritura, não sempre como sucede no batismo, é totalmente perdoado àqueles que ingratos à divina graça que receberam, entristeceram o Espírito Santo, e não se envergonharam de profanar o templo de Deus. Desta penitência é que diz a Escritura: "Lembre-se de qual estado você caiu: faça penitência e executa as boas obras". E também: "A tristeza de haver pecado contra Deus, produz uma penitência permanente para conseguir a salvação". E ainda: "Fazei penitência e fazei frutos dignos de penitência".
Temos que ter em mente por certo, prevenção contra os gênios astutos de alguns que seduzem com doces palavras e bênçãos os corações inocentes pois a graça que recebemos no batismo, poderemos perder não somente com a infidelidade, pela qual perece a própria fé, mas também com qualquer outro pecado mortal, ainda que a fé se conserve.
Isto está escrito na doutrina da Divina Lei, a qual exclui do reino de Deus, não somente os infiéis, mas também os fiéis que praticam a fornicação, os adultérios, os efeminados, sodomitas, ladrões, avaros, alcoólatras, maldizentes, e a todos os demais que caem em pecados mortais, pois podem abster-se deles com a divina graça, e ficam por eles separados da graça de Cristo.
Às pessoas que já foram batizadas e desse modo conservam perpetuamente a graça que receberam, e às que a recuperaram depois de perdida, de deve lembrar as palavras do Apóstolo São Paulo: "Façam em bastante quantidade toda espécie de boas obras e saibam bem que vosso trabalho não é vão para Deus, pois Deus não é injusto ao ponto de esquecer vossas obras e nem do amor que manifestastes em Seu nome". E também: "Não perdais vossa confiança que tendes um grande Guardião". E esta é a causa pela qual os que fazem boas obras até a morte e esperam em Deus, a eles é concedida a vida eterna como graça prometida misericordiosamente por Jesus Cristo, aos filhos de Deus, visto que é o prêmio com que serão recompensados fielmente, segundo a promessa de Deus, os méritos e as boas obras. Esta é pois, aquela coroa de justiça que, como dizia o Apóstolo, estava reservada para ser obtida depois de sua luta e seu caminho, a mesma que deveria ser dada pelo justo Juiz, não só aos batizados, mas também a todos aqueles que desejam Sua santa chegada.
Como o próprio Jesus Cristo difundia perenemente sua virtude aos batizados, como cabeça nos membros, e tronco nos ramos, e conhecendo que Sua virtude sempre antecede, acompanha e segue as boas obras, e sem ela não poderiam ser de modo algum aceitas nem meritórias ante Deus, se deve lembrar que nenhuma outra coisa falta aos batizados para crer que satisfizeram plenamente à lei de Deus com aquelas boas ações que executaram, segundo Deus, proporcionalmente ao estado presente da vida, nem por que verdadeiramente tenham merecido a vida eterna (que conseguirão no devido tempo, se morrerem em estado de graça), pois Cristo nosso Salvador diz: "Se alguém beber da água que eu lhe der, não terá sede por toda a eternidade, mas encontrará em si mesmo uma fonte de água que corre por toda a vida eterna".
Em conseqüência disso, nem se estabelece nossa salvação como oriunda de nós mesmos, nem se desconhece, nem despreza a santidade que vem de Deus, pois a santidade que chamamos nossa, porque está inerente em nós, é nossa salvação, e é de Deus, pois Deus a infunde em nós, pelos méritos de Cristo, nem tão pouco se deve omitir que ainda que na Sagrada Escritura sejam dadas às boas ações tanta estima que, promete Jesus Cristo, não ficará sem seu prêmio àquele que der de beber água a um de Seus pequeninos. E o Apóstolo é testemunha que o peso da tribulação que neste mundo é momentâneo e leve, nos dá no céu uma grande e eterna recompensa em glória.
Não permita Deus que o Cristão confie demais ou se vanglorie em si mesmo e não no Senhor, cuja bondade é tão grande para com todos os homens que Ele quer que sejam deles próprios os méritos que são Seus dons. E como todos nós cometemos muitas ofensas, deve cada um ter sempre em vista que assim como Deus é Senhor da misericórdia e bondade, também O é de severidade no julgamento. Sem que ninguém seja capaz de julgar-se a si mesmo, ainda que nada lhe doa na consciência, pois não será examinada e julgada a vida dos homens em um tribunal humano, mas sim naquele de Deus, que é Quem iluminará os segredos das trevas e manifestará os desígnios do coração, e então cada um receberá o elogio e a recompensa de Deus, que, como está escrito, as retribuirá de acordo com suas obras .